Jornal da Escola Secundária/3 da Sé - Lamego

Escola Saudável Março de 2002 

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Lamego, 5 de Dezembro de 2001

 

Querido Pai Natal


Era assim que começava todos os meus pedidos de criança, nesta época natalícia em que acreditava que era época de paz, amor e tranquilidade, em que o sonho era para mim uma realidade e em que acreditava que existia esse velhinho, vestido de vermelho, com as suas longas barbas, que podia realizar todos os meus sonhos e pedidos se me comportasse bem durante o ano. Mas duvidava que tal me fosse realizado, pois olhando para trás o comportamento não tinha sido o ideal.

Porém, os anos passam e agora na adolescência essa crença tão linda desvanece-se. Chega o dia em que a dura realidade se descobre, e aí vemos que tudo o que nos contaram não passa de uma fantasia, que a época de Natal, se pararmos para pensar, é a altura do ano em que, em nome do amor e da amizade, as compras ganham preponderância na vida de todos nós, e que a troca de prendinhas é mais importante que a convivência e a "troca" de amor.

Como posso, Pai Natal, continuar a acreditar em todos estes valores de que eu ouvia falar quando era criança e em que acreditava, na inocência que tinha, que falavam de paz e amor, porque assim era construído o Mundo?

Mas não!!! Corremos tempos de perigo, conflitos e ameaças… seguirá o Homem o ritmo da sua ambição, ou conseguirá o tempo parar e restabelecer a harmonia? Conseguiremos a necessária protecção para que o Natal seja vivido como mandam as tradições, em perfeita tranquilidade?


Dificilmente podemos ignorar que há quem passe este Natal sem uma única refeição, com frio, sem um tecto que possa esconder o reflexo das chamas geradas pelas múltiplas explosões. Para estes, o céu está cheio de luz, mas uma luz diferente daquela que ilumina as nossas árvores de Natal.

Antes de nos queixarmos que não temos esta ou aquela prenda, porque não pensarmos antes no benefício de termos família e de, ainda, vivermos em paz?

Gostaria pois, Pai Natal, que este Natal me trouxesses de volta a pureza e a paz interior que sentia no meu tempo de criança, onde ainda tinha poderes e esperança, onde acreditava que um dia, talvez, pudesse unir a minha família, estar junto da minha mãe, e ter sempre ao meu lado aquela, que para além de mãe, é a nossa confidente e o ombro amigo, que nos apoia e conforta, com quem pudemos contar nos bons momentos e nos maus momentos.

Na mais triste da realidade, esse sonho foi-se desvanecendo ao passar dos anos. Hoje tenho mais duas irmãs, de quem gosto muito, e a minha mãe, junto ao pai delas tenta construir a vida trabalhando para as poder sustentar e me dar aquilo que está ao seu alcance. Embora a poucos quilómetros daqui, vivemos separadas pela força das coisas. Por isso, na minha lista de prendinhas peço-te que me faças renascer esse sonho, mesmo que não tenha fundamento, e que me dês os meios possíveis e impossíveis de torná-lo realidade, que por fim acabe esta angústia e esta mágoa que nos separa… que o tempo de criança em que a paz de espírito e a minha inocência derrubaram múltiplas barreiras e os obstáculos próprios destas idades, desde a fala a andar, de correr a saltar, de apenas falar a comunicar…que agora com essa tranquilidade e paz que te peço que me tragas de volta, eu possa ultrapassar as barreiras e os obstáculos que se interpuseram no meu caminho e tal como aprendi a falar, uma língua que até é complexa, estudar, compreender e assimilar, para superar certas disciplinas que me parecem difíceis. Que eu possa também triunfar e avançar na vida de cabeça erguida, formar-me e continuar a viver a vida cheia de paz, amor e tranquilidade.


Por fim peço-te que me dês a compreensão e que mantenhas sempre em mim sentimentos bons, como a gratidão que tenho perante os meus avós por me terem criado, que possam contar comigo em todos os momentos necessários, que nunca desapareça este laço que nos une e mantenhas em mim a chama do amor que eu sinto por eles assim como eles sentem por mim…. que tragas tudo o que te peço àqueles que amo sem esquecer os meus tios e primos, pois a minha tia ensinou-me nos meus primeiros passos de vida que com o teu poder mágico iluminas a nossa vida. Que como ela me amparou várias vezes para eu não cair, quando aprendi a andar, agora me possa amparar para nunca cair no mundo das tentações, para que possa partilhar comigo todos os momentos de tristeza…e de alegria.

Sei que tens mais cartas para ler. Não te peço brinquedos, nem bens materiais. Apenas peço-te aquilo de que preciso realmente para poder avançar em paz comigo mesma.

A minha família e os meus estudos são o mais importante para poder crescer e vencer. Talvez um dia possa dizer que "valeu a pena viver".

Até para o ano, Pai Natal. Muitos beijos.

Beatriz

 

 

 

 

 

 

1.º Prémio
(Modalidade: Prosa)



Ler é saber

Um escritor sem diplomas
Cesário Verde, o poeta do olhar


É talvez o maior pintor com palavras da Literatura Portuguesa. José Joaquim Cesário Verde nasceu em Lisboa, na freguesia da Madalena, em 1855. Filho de um comerciante de ferragens e lavrador, Cesário cultivou uma enorme admiração pelo campo. Cresceu num ambiente rico, muito utilitário e mercantil e possivelmente sem formação religiosa. Consta até que o pai, homem prático, transformou a capela da quinta de Linda-a-Pastora num armazém.

Sabe-se muito pouco sobre o percurso escolar de Cesário. Pensa-se que terá começado muito novo, talvez depois de concluir a instrução primária, a trabalhar na loja do pai. Matriculou-se, mais tarde, no Curso Superior de Letras, como aluno voluntário, mas não se apresentou a exame nem se inscreveu no ano seguinte.


No entanto, este grande poeta, cuja sensibilidade se revelou muito cedo, possuía uma cultura invulgar, que adquiriu ao longo da vida – foi um autodidacta. O seu domínio perfeito da língua portuguesa, a riqueza e precisão de vocabulário, o rigor e a objectividade no uso dos adjectivos deixam perceber que Cesário foi um leitor atento dos bons autores da época, como Víctor Hugo, Baudelaire, Flaubert, Taine, Camões e João de Deus, que cita em cartas e poemas.

Quando morreu, em 1886, deixou poemas dispersos por jornais da época. Foi Silva Pinto, um amigo dedicado, quem os reuniu e publicou, postumamente, em 1887, num volume a que deu o título de O livro de Cesário Verde.

Luís Silvestre e Patrícia Sousa, 12.º A


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