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Lamego, 5
de Dezembro de 2001
Querido
Pai Natal
Era assim que
começava todos os meus pedidos de criança, nesta época
natalícia em que acreditava que era época de paz, amor e
tranquilidade, em que o sonho era para mim uma realidade e em
que acreditava que existia esse velhinho, vestido de vermelho,
com as suas longas barbas, que podia realizar todos os meus
sonhos e pedidos se me comportasse bem durante o ano. Mas
duvidava que tal me fosse realizado, pois olhando para trás o
comportamento não tinha sido o ideal.
Porém,
os anos passam e agora na adolescência essa crença tão linda
desvanece-se. Chega o dia em que a dura realidade se descobre, e
aí vemos que tudo o que nos contaram não passa de uma
fantasia, que a época de Natal, se pararmos para pensar, é a
altura do ano em que, em nome do amor e da amizade, as compras
ganham preponderância na vida de todos nós, e que a troca de
prendinhas é mais importante que a convivência e a
"troca" de amor.
Como
posso, Pai Natal, continuar a acreditar em todos estes valores
de que eu ouvia falar quando era criança e em que acreditava,
na inocência que tinha, que falavam de paz e amor, porque assim
era construído o Mundo?
Mas
não!!! Corremos tempos de perigo, conflitos e ameaças…
seguirá o Homem o ritmo da sua ambição, ou conseguirá o
tempo parar e restabelecer a harmonia? Conseguiremos a
necessária protecção para que o Natal seja vivido como mandam
as tradições, em perfeita tranquilidade? |
Dificilmente podemos ignorar que há quem passe este Natal sem
uma única refeição, com frio, sem um tecto que possa esconder
o reflexo das chamas geradas pelas múltiplas explosões. Para
estes, o céu está cheio de luz, mas uma luz diferente daquela
que ilumina as nossas árvores de Natal.
Antes
de nos queixarmos que não temos esta ou aquela prenda, porque
não pensarmos antes no benefício de termos família e de,
ainda, vivermos em paz?
Gostaria
pois, Pai Natal, que este Natal me trouxesses de volta a pureza
e a paz interior que sentia no meu tempo de criança, onde ainda
tinha poderes e esperança, onde acreditava que um dia, talvez,
pudesse unir a minha família, estar junto da minha mãe, e ter
sempre ao meu lado aquela, que para além de mãe, é a nossa
confidente e o ombro amigo, que nos apoia e conforta, com quem
pudemos contar nos bons momentos e nos maus momentos.
Na mais triste da
realidade, esse sonho foi-se desvanecendo ao passar dos anos.
Hoje tenho mais duas irmãs, de quem gosto muito, e a minha
mãe, junto ao pai delas tenta construir a vida trabalhando para
as poder sustentar e me dar aquilo que está ao seu alcance.
Embora a poucos quilómetros daqui, vivemos separadas pela
força das coisas. Por isso, na minha lista de prendinhas
peço-te que me faças renascer esse sonho,
mesmo que não tenha fundamento, e que me dês os meios
possíveis e impossíveis de torná-lo realidade, que por fim
acabe esta angústia e esta mágoa que nos separa… que o tempo
de criança em que a paz de espírito e a minha inocência
derrubaram múltiplas barreiras e os obstáculos próprios destas idades, desde a fala a andar, de correr a saltar, de
apenas falar a comunicar…que agora com essa tranquilidade e
paz que te peço que me tragas de volta, eu possa ultrapassar as
barreiras e os obstáculos que se interpuseram no meu caminho e
tal como aprendi a falar, uma língua que até é complexa,
estudar, compreender e assimilar, para superar certas
disciplinas que me parecem difíceis. Que eu possa também
triunfar e avançar na vida de cabeça erguida, formar-me e
continuar a viver a vida cheia de paz, amor e tranquilidade. |
Por fim peço-te que me dês a compreensão e que mantenhas
sempre em mim sentimentos bons, como a gratidão que tenho
perante os meus avós por me terem criado, que possam contar
comigo em todos os momentos necessários, que nunca desapareça
este laço que nos une e mantenhas em mim a chama do amor que eu
sinto por eles assim como eles sentem por mim…. que tragas
tudo o que te peço àqueles que amo sem esquecer os meus tios e
primos, pois a minha tia ensinou-me nos meus primeiros passos de
vida que com o teu poder mágico iluminas a nossa vida. Que como
ela me amparou várias vezes para eu não cair, quando aprendi a
andar, agora me possa amparar para nunca cair no mundo das
tentações, para que possa partilhar comigo todos os momentos
de tristeza…e de alegria.
Sei
que tens mais cartas para ler. Não te peço brinquedos, nem
bens materiais. Apenas peço-te aquilo de que preciso realmente
para poder avançar em paz comigo mesma.
A
minha família e os meus estudos são o mais importante para
poder crescer e vencer. Talvez um dia possa dizer que
"valeu a pena viver".
Até
para o ano, Pai Natal. Muitos beijos.
Beatriz
1.º Prémio
(Modalidade: Prosa) |
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Ler é saber
Um escritor sem diplomas
Cesário Verde, o poeta do
olhar
É talvez o maior pintor com
palavras da Literatura Portuguesa. José Joaquim Cesário Verde
nasceu em Lisboa, na freguesia da Madalena, em 1855. Filho de um
comerciante de ferragens e lavrador, Cesário cultivou uma
enorme admiração pelo campo. Cresceu num ambiente rico, muito
utilitário e mercantil e possivelmente sem formação
religiosa. Consta até que o pai, homem prático, transformou a
capela da quinta de Linda-a-Pastora num armazém.
Sabe-se muito pouco sobre o percurso escolar de
Cesário. Pensa-se que terá começado muito novo, talvez depois
de concluir a instrução primária, a trabalhar na loja do pai.
Matriculou-se, mais tarde, no Curso Superior de Letras, como aluno
voluntário, mas não se apresentou a exame nem se inscreveu no
ano seguinte. |
No entanto, este grande poeta,
cuja sensibilidade se revelou muito cedo, possuía uma cultura
invulgar, que adquiriu ao longo da vida – foi um autodidacta.
O seu domínio perfeito da língua portuguesa, a riqueza e
precisão de vocabulário, o rigor e a objectividade no uso dos
adjectivos deixam perceber que Cesário foi um leitor atento dos
bons autores da época, como Víctor Hugo, Baudelaire, Flaubert,
Taine, Camões e João de Deus, que cita em cartas e poemas.
Quando morreu, em 1886, deixou
poemas dispersos por jornais da época. Foi Silva Pinto, um
amigo dedicado, quem os reuniu e publicou, postumamente, em
1887, num volume a que deu o título de O livro de Cesário
Verde.
Luís Silvestre e Patrícia Sousa, 12.º A |
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