Acção de Formação a Distância PROF2000
AF-33 - 2004

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Círculo de Estudos
História da Matemática com o
inderella

Formando
António Manuel Marques do Amaral
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Resposta ao Fórum

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«Poderá um software de geometria dinâmica ajudar numa mais eficaz utilização da história da matemática na sala de aula?»
Questão colocada no fórum

 

O corpo de texto

 

Nota

 

«Poderá um software de geometria dinâmica ajudar numa mais eficaz utilização da história da matemática na sala de aula?»

 

«A matemática é uma grande aventura nas ideias; a sua história reflecte alguns dos mais nobres pensamentos de inúmeras gerações.»
(Dirk J. Struik)

 

Depois da troca de impressões ocorrida na 1.ª sessão e das leituras sugeridas nos materiais (e outras(1) da minha iniciativa), deixo aqui registadas algumas ideias, que, por ventura, mais não serão que o reflexo das ditas.

 

Sendo a matemática um corpo de conhecimentos naturalmente desenvolvido por pessoas durante há já alguns milénios, o estudo da sua história permite tomar consciência de uma tradição que, incluindo facetas várias do drama humano que captura a imaginação e perpetua o interesse (mistério, aventura, intriga, etc.), vai fazer diminuir as suas cargas mística e mágica, naturalmente absurdas. O estudo da história da matemática permite descobrir que a matemática formalizada é precedida por uma matemática informal e quase empírica (que se desenvolve pelo jogo das conjecturas através da especulação, da crítica e da dinâmica dos interesses práticos e teóricos), a qual, sendo objecto de estudo, dá uma visão unitária integradora, proporcionando a iluminação das ideias iniciais de certos assuntos e elementos, que doutra forma não se interpretariam.

Eduardo Veloso, na sua obra “Geometria – Temas actuais”, Edição do Instituto de Inovação Educacional, 1.ª Edição (Julho, 1998), refere a partir da página 24:

«O texto mais completo de Freudenthal sobre o ensino da geometria constitui um dos capítulos do seu livro Mathematics as an Educational Task, publicado em 1973. O título do capítulo é The case of geometry ("o caso da geometria") e as questões principais são expostas logo nos primeiros parágrafos, que não podemos deixar de transcrever:

Durante muito tempo matemática foi sinónimo de geometria. De facto, sempre existiram também outros ramos - álgebra, trigonometria, cálculo - que contudo quase não passavam de colecções de regras não fundamentadas, escolhidas ao acaso, enquanto a geometria era um sistema conceptual perfeito, onde as afirmações resultavam rigorosamente umas das outras e finalmente tudo das definições e axiomas. Embora outras técnicas fossem mais eficientes, a geometria era a verdade genuína. Mas a alta estima que era atribuída à geometria foi desaparecendo. Os sistemas axiomáticos de Pasch e Hilbert revelaram muitas falhas na geometria clássica. Por outro lado as axiomáticas do tipo das de Pasch-Hilbert eram tão complicadas que o que se podia fazer era lê-las ou fazer investigação sobre os fundamentos a propósito delas, mas não era possível fazer geometria no seu interior ou, em qualquer caso, ensinar geometria com elas.

Noutros tempos, a geometria não era apenas uma poderosa peça de ciência dedutiva; era o mais antigo e divulgado exemplo de didáctica. A primeira lição que ficou registada foi a lição experimental que Sócrates deu ao escravo de Meno diante deste, embora o relato de Platão possa ser ficção. Não se tratou de acaso o facto do conteúdo da lição de Sócrates ter sido geometria. Ainda hoje a geometria seria um excelente tema para o método socrático e para a reinvenção; a este respeito apenas é igualada pelas probabilidades.

A estrutura dedutiva da geometria tradicional não foi apenas um sucesso didáctico. Existem actualmente pessoas que acreditam ter a geometria falhado por não ter sido suficientemente dedutiva. Na minha opinião, a causa foi antes o facto da dedução não ser ensinada como reinvenção, como fez Sócrates, mas sim imposta ao aluno. De qualquer modo, algumas pessoas defendem e promovem actualmente a abolição da geometria. Entre aqueles que deveriam abrir à juventude as portas da sua herança cultural, existem alguns que alegremente deitariam a geometria no incinerador cultural. Os dias da geometria tradicional estão contados, se porventura ainda existe em algum lugar. O que se lhe seguirá? Esta questão urgente justifica o título deste capítulo. O "caso da geometria" - foi condenada à morte, mas terá tido um julgamento imparcial? Foi condenada justamente ou devido a provas falsas? Teve o réu advogado de defesa? Não deverá ser reaberto o processo?

Se existem hoje motivos para preocupação do futuro do ensino da geometria e mesmo para recear que a geometria possa desaparecer do currículo, os primeiros culpados são aqueles que, activa ou passivamente, resistiram à inovação no ensino da Matemática. As vozes daqueles que defendiam a renovação não foram ouvidas. O grupo mais perigoso era constituído por aqueles que acreditavam que podiam salvar a velha geometria reforçando a sua estrutura dedutiva; tarefa voltada ao fracasso, sem dúvida. Geometria não é apenas dedução.»

E, na página 38, continua Eduardo Veloso:

«Não é possível compreender o papel da matemática na construção da nossa sociedade sem integrar a história da geometria no seu ensino. Acresce que durante muitos séculos a história da matemática se confundiu praticamente com a história da geometria, e a maior parte dos matemáticos eram intitulados geómetras. Assim, a componente histórica no programa de geometria, nomeadamente no ensino secundário, deve tomar-se muito mais ampla do que é na actualidade.

Tendo em conta que a história da geometria não terminou no séc. XVIII nem se esgota com a geometria euclidiana, é importante que os alunos não abandonem o 12.° ano sem compreender que existem "outras geometrias" para além daquela com que contactaram durante quase toda a escolaridade. Esta compreensão deve "ter uma base experimental - os alunos devem trabalhar, resolver problemas ou realizar actividades de investigação noutras geometrias para além da geometria euclidiana. Além disso, a existência das geometrias não-euclidianas tem implicações filosóficas profundas, e não é aceitável manter os alunos alheios a elas depois de 12 anos de escolaridade.»

Uma forma de estudar as figuras geométricas, oriunda dos antigos matemáticos gregos, é através da realização e exploração de construções geométricas. Os matemáticos gregos clássicos faziam construções utilizando apenas régua e compasso, o que deu origem a muitos e interessantes problemas de Geometria (por exemplo, a quadratura do círculo, a trissecção do ângulo e a duplicação do cubo), cujo principal interesse na procura de soluções (ao longo dos tempos) para alguns dos problemas de construção geométrica, esteve na investigação das figuras que propiciou e na descoberta das suas propriedades, estabelecidas sob a forma de teoremas e também utilizadas em aplicações mecânicas.

A realização e exploração de construções geométricas, praticada pelos geómetras aos longo dos tempos, constitui uma forma poderosa de aprender e ensinar Geometria. Considerando as características e potencialidades dos mais modernos Ambientes Geométricos Dinâmicos (Texto 4, GSP, Cabri, Cinderella [Jorge Nuno Silva], GSP [Eduardo Veloso], Cabri-Géomètre [Branca Silveira], Cabri, Sketchpad e Cinderella [Mesa Redonda], Geometry With Cinderella), estará facilitada a utilização da história da matemática (geometria e suas conexões) na sala de aula, porquanto se resolverão alguns dos constrangimentos (ou impossibilidades) mais frequentes nas tentativas tradicionais de abordagem com papel e lápis, por facultarem quase sempre:

  • ferramentas que permitem a construção de figuras geométricas utilizando explicitamente as suas propriedades, mas, principalmente, viabilizarem a modificação (de forma simples e imediata) dessas construções, proporcionando a visualização de muitas e diferentes representações de uma figura;

  • o uso de cores nos desenhos até a existência de uma calculadora interna e a possibilidade de medição de ângulos, distâncias e áreas, ocorrendo a actualização dos valores em tempo real a partir da movimentação da figura;

  • se um determinado problema requer (ou sugere) o uso de sistemas de coordenadas, estes programas disponibilizam sistemas de coordenadas cartesianas e polares;

  • a possibilidade de criação e arquivamento de construções que podem ser utilizadas numa outra situação, através de macro-construções ou scripts;

  • através do rato é possível clicar sobre um ponto do objecto geométrico construído e depois arrastá-lo pelo ecrã, criando um movimento que provoca uma mudança na configuração. A questão sobre o que se pode arrastar e sobre por que arrastar permite a diferenciação entre uma figura construída ou simplesmente desenhada;

  • a possibilidade de ocultação de elementos que não interessam na construção;

  • um comando de rastro que possibilita a visualização ponto a ponto da trajectória de um objecto escolhido, assim como a animação de figuras, permitindo a simulação de situações mecânicas;

  • a realização (imediata) de várias transformações geométricas, tais como simetria, reflexão, rotação, translação e dilação, após a definição dos respectivos parâmetros;

  • a construção de lugares geométricos ou locus, baseada na trajectória de um objecto em função de um caminho conhecido que outro objecto percorre.

 

Estas potencialidades dos softwares de geometria dinâmica são algumas das suas mais importantes características que, além de facilitarem a construção geométrica pretendida, aumentarem a sua precisão e diminuírem o tempo gasto na mesma quando feita com papel e lápis, ajudam a enriquecer o processo de ensino-aprendizagem da geometria (e suas conexões), além de valorizarem o conhecimento matemático e a sua construção, através das acções de experimentar, interpretar, visualizar, induzir, conjecturar, abstrair, generalizar e demonstrar.

Cada uma destas características está fortemente relacionada com as restantes, contudo podem ser apresentadas separadamente com o objectivo de tornar mais perceptível a sua importância:

(A) Precisão e variedade na construção de objectos geométricos

(B) Exploração e descoberta

(C) Visualização ou Representação Mental de Objectos Geométricos

(D) Prova

 

Acresce que este tipo de software permite que a grande maioria das propriedades pode ser re(descoberta) através de um método heurístico, que parte da realização de construções geométricas e coloca o desafio de perceber porque é que essas construções funcionam e descobrir as suas consequências. Schumann, um investigador alemão colaborador do projecto Cabri-géomètre, sistematizou o seguinte método:

  1. Descoberta indutiva de propriedades através de construções geométricas.

  • Resolução de um problema de construção.
    Resultado: uma configuração geométrica.

  • Análise do resultado da construção (em particular, através da inclusão e destaque de elementos essenciais, obtidos através de medições e de cálculos baseados em medições).
    Resultado: uma primeira conjectura.

  • Realização de novas construções que tenham em consideração casos diversificados e verificação da conjectura nessas construções.
    Resultado: confirmação da conjectura com a formulação de um primeiro teorema ou rejeição da conjectura.

  1. Descoberta e apresentação da prova.

  • Necessidade da prova: motivação.

  • Análise do problema: estabelecimento das hipóteses e da tese.

  • Aplicação de métodos heurísticos para descobrir provas (avançar da hipótese para a tese, trabalhar em sentido contrário, raciocinar por analogia com outras provas, etc.).

  • Documentação da prova tendo em vista a sua compreensão.

  1. Tratamento do teorema e da prova.

  • Discussão e explicação da metodologia para descobrir teoremas e provas.

  • Aplicação de métodos heurísticos, como especialização, generalização, comparação, inversão, para produzir novas afirmações.

 

Naturalmente que por vezes há limitações. As limitações encontradas nos softwares de geometria dinâmica são, muitas vezes, consequências da própria tecnologia utilizada e algumas delas podem até mesmo ser exploradas pelo professor nas aulas.

 

Defendendo-se uma Geometria que envolva um amplo espectro de actividades, iniciando-se pela exploração concreta e experimentação, passando pelo acto de conjecturar e chegando até às provas formais, a sua importância vai muito além da simples aquisição de conteúdos predeterminados. Envolve o desenvolvimento da compreensão, não apenas em Matemática, mas na ciência em geral. Sob este ponto de vista, os programas de Geometria Dinâmica têm uma contribuição específica a dar, oferecendo novas representações de objectos geométricos que, de alguma forma, «concretizam» a figura formal. O trabalho com estes programas oferece formas alternativas de aprender Geometria e, como consequência, novas formas de ensiná-la.

 

Nos programas dos Ensino Básico e Secundário, a História da Matemática aparece desde alguns anos como um tema transversal, que devia ser integrado de forma harmoniosa nos outros temas. Infelizmente, a preparação da generalidade dos professores nesta matéria é muito reduzida – que é o meu caso –, e os programas adiantam poucas referências significativas que possam suportar actividades da História da Matemática. Por seu lado, a generalidade dos manuais escolares pouco acrescentam, limitando-se alguns a fazer uma ou outra referência histórica que é insuficiente para que o professor, que desconhece o assunto, possa desenvolver actividades significativas com os seus alunos.

 

 

Pelo acima exposto, sabido como introduzir a História da Matemática de forma harmoniosa nos outros temas, é minha convicção que um software de geometria dinâmica poderá ajudar numa mais eficaz utilização da história da matemática (geometria e suas conexões) na sala de aula.

 

E acreditando que a minha convicção é acertada, nada mais restará do que um simples pormenor de concretização...

 

 

http://www.glasbergen.com

 

 


(1)

   

 


Em virtude de ter desaparecido o corpo de texto da minha resposta a esta questão colocada no fórum, tomo a iniciativa de o publicar nesta página.


Essa resposta foi publicada no fórum a 11 de Outubro de 2004 01:08.

 

Tópico: Software de geometria dinâmica e a história da matemática (1 of 3), Lido 32 vezes
Forum: História da Matemática com o Cinderella
De: José Miguel R. Sousa (miguel@mail.prof2000.pt)
Data: quarta-feira, 6 de Outubro de 2004 08:02
 
Depois de ler os textos disponíveis nos materiais da 1ª sessão, poderá responder à questão (como previsto no plano da sessão 1):
"Poderá um software de geometria dinâmica ajudar numa mais eficaz utilização da história da matemática na sala de aula?".


Dirk Struik, no artigo* Porquê estudar a História da Matemática? (Cadernos do Grupo de Trabalho de História e Ensino da Matemática, 1º volume, APM, Lisboa, 1997) escreveu:
“A matemática ensinada de acordo com os manuais actuais, escritos para crianças ou para estudantes universitários, simplesmente não tem muita história, ainda menos do que a que se possa encontrar nos livros de física e biologia. Não se pode ensinar evolução em biologia sem esboçar a sua própria evolução. Não é assim na maior parte da matemática, tal como é usualmente ensinada. Conheci no meu tempo professores dedicados, autores de manuais de geometria, que nunca tinham ouvido falar de Euclides. O seu ensino não foi afectado por isso e o seu material foi bem acolhido.”

Durante muito séculos a história da matemática confundiu-se com a história da geometria (durante muito tempo matemática foi sinónimo de geometria) e não é possível compreender o papel da matemática na nossa sociedade sem estudar a história da geometria.
Pessoalmente quero acreditar que o esforço político que está a ser feito (será? ) em equipar as escolas com mais e melhores computadores poderá transformar o panorama da utilização de programas de geometria dinâmica na sala de aula.


* Sugiro uma leitura completa do artigo em causa, pois este excerto isolado pode dar uma perspectiva diferente daquilo que pretende Struik com o seu artigo.

 

 

 

 


     

 

Actualizada em
 19-10-2004