O voto é uma das grandes
conquistas da Humanidade. Ainda nada melhor foi inventado para
conseguir um sistema de governo que garanta a liberdade e o
progresso. E será possível inventá-lo?
O sistema usado nas democracias baseia-se no chamado
voto plural, que é mais conhecido pela sigla «Um homem um voto».
Aqui, «homem» representa cidadão, portanto admitimos que o voto
plural inclui homens e mulheres. Parece um sistema justo. E é. Mas
não está isento de paradoxos, de situações aparentemente
contraditórias e surpreendentes que têm sido notadas desde a
Antiguidade.
Ao que se sabe, terá sido Plínio, o Novo, assim
chamado para o distinguir do tio, Plínio, o Velho, quem primeiro
revelou algumas situações paradoxais derivadas do voto. Estava-se no
século II d.C. e as eleições estavam reservadas a uma elite, mas os
problemas eram os mesmos. No século XVII, os paradoxos eleitorais
começaram a ser discutidos sistematicamente. Procurava-se um sistema
de eleições perfeito e racional e começaram a surgir os
problemas.
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Reprodução da capa dos livros de H. Nurmi e
de D. Saari – duas das obras que abordam este tema
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O
matemático francês Jean-Charles Borda (1733-1799) foi o primeiro a
estudar sistematicamente o problema. O que descobriu surpreendeu os
seus contemporâneos. Olhando para o sistema eleitoral como um método
de agregar opiniões para encontrar uma escolha colectiva, notou que
métodos diferentes conduzem a resultados diferentes. O paradoxo de
Borda, como veio a ser conhecido, foi muito discutido na época, sem
se encontrar uma solução satisfatória.
Borda apresentou o problema à Academia Real Francesa
em 16 de Junho de 1770. Colocou um exemplo em que 21 votantes
escolhiam entre 3 candidatos. Considerou as preferências relativas
de cada votante, isto é a forma como cada eleitor hierarquizava os
candidatos. O que reparou foi que era possível eleger um candidato
que a maioria dos eleitores colocava em último lugar. Bastava para
isso que os votos dos outros dois estivessem suficientemente
divididos. Modernamente chama-se a isso a eleição de um perdedor de
Condorcet, isto é, de um candidato que perde em comparações
bilaterais com todos os outros. No exemplo de Borda, o candidato A
perdia as eleições se apenas as disputasse com o candidato B,
perdê-las-ia de novo se apenas se defrontasse com o candidato C, mas
ganhá-las-ia se fosse às urnas contra os dois em simultâneo.
Para resolver o paradoxo, Borda propôs um sistema que
veio a ser chamado contagem de Borda. É semelhante ao que é aplicado
no Festival da Canção e em outros concursos. Em vez do sistema «um
homem um voto», Borda dava a cada eleitor a possibilidade de
atribuir uma pontuação a cada candidato. Havendo três, cada eleitor
daria dois pontos ao candidato que preferisse, um ponto ao da sua
segunda preferência e zero ao restante. Os pontos seriam depois
somados e a escolha recairia sobre o candidato mais pontuado.
O sistema parece perfeito,
mas tem também os seus problemas. Primeiramente, por que razão tem a
preferência que ser linear? Dar-se zero pontos ao candidato menos
querido, um ponto ao seguinte e por aí adiante, pode não reflectir
exactamente as nossas preferências. Não poderia um votante dar zero
pontos a um candidato, meio ponto ao seguinte e ponto e meio a um
terceiro? O curioso é que, se assim fosse, o vencedor poderia não
ser o mesmo. Com idênticas ordenações das preferências, o candidato
mais votado pode depender dos pesos que se fixarem. Quer dizer, o
sistema de pontos nem sempre dá o mesmo resultado. Este sistema de
eleições também permite graus de arbitrariedade.
Mais grave ainda, como o mostrou um compatriota de
Borda, o matemático e filósofo Marquês de Condorcet (1743-94), nem
sempre é possível agregar as preferências dos votantes de forma
coerente. As preferências de cada eleitor devem ter uma propriedade
elementar, devem ser transitivas: se um eleitor põe o candidato A à
frente do B e coloca o B à frente do C, então também colocará o A
adiante do C.
Numa colectividade e em eleições em que haja pelo
menos três candidatos, não é isso que se passa. A colectividade pode
preferir A a B, preferir B a C e, no entanto, preferir C a A! Como
se resolverá este problema?
Donald Saari, um matemático da Universidade de
Califórnia em Irvine que se tem dedicado a estudar os problemas
eleitorais, mostrou que pequenas mudanças em qualquer sistema
eleitoral podem trazer grandes alterações nos resultados das
eleições. Saari é um dos matemáticos e especialistas de ciência
política que se têm dedicado a estudar os problemas da chamada
escolha pública, uma área que sofreu um grande desenvolvimento na
segunda metade do século XX.
Nesta altura, o leitor pode já suspeitar que seja
difícil encontrar um sistema perfeito. Mas o problema é ainda mais
complexo do que à primeira vista parece. Kenneth J. Arrow, um
matemático e economista norte-americano que recebeu o prémio Nobel
em 1972, estudou um conjunto de condições eleitorais aparentemente
razoáveis, tais como a discutida transitividade das preferências, e
mostrou que não há nenhum sistema eleitoral democrático que
satisfaça simultaneamente todas essas condições.
Que se pode então fazer? Matematicamente o problema
não tem solução, mas a sociedade não precisa de sistemas perfeitos e
sim de regras falíveis e aproximadas, que conduzam a escolhas
colectivamente aceites. A matemática pode ajudar a perceber os
problemas dos diversos sistemas eleitorais. Mas não põe em causa a
democracia, pois essa é uma escolha moral colectiva que a História
tem revelado ser acertada.
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