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A Matemática dos Sistemas Eleitorais
Por
ANA CORREIA MOUTINHO Domingo, 17 de Março de 2002
Será que a votação
de hoje vai reflectir a vontade dos portugueses? Possivelmente não,
mas o problema é matemático e não político
"Um homem, um voto" pode ser a
expressão mais comum da democracia, mas como paradigma eleitoral
está longe de traduzir a complexidade da vontade dos eleitores. Não
interessa se estamos a eleger o Papa, a administração de um
condomínio ou a Assembleia da República, o sistema é mau e existem
outros melhores como, por exemplo, o utilizado no festival da
canção.
Quem explicou estas contas a uma plateia repleta no Pavilhão do
Conhecimento, em Lisboa, foi Jorge Buescu, matemático no Instituto
Superior Técnico, durante mais uma tarde de divulgação, há mais uma
semana, promovida pelo programa Ciência Viva e a Sociedade
Portuguesa de Matemática. "Não proponho a reforma do sistema
eleitoral para amanhã, mas é importante perceber que existem
problemas sérios".
Na verdade, há mais de 50 anos que Kenneth Arrow, Nobel da
economia em 1972, provou que não existe um sistema eleitoral justo e
imune aos paradoxos que deixam descontentes fatias consideráveis do
eleitorado. "O problema é não considerar o que se passa para além da
primeira opção", explicou o investigador português. O que acontece
em muitas situações do dia-a-dia e ocupa os cientistas há mais de
dois séculos, especialmente desde que os governos representativos
começaram a aparecer na Europa e América do Norte.
Se num jantar com amigos escolher beber sumo e a maioria optar
pelo vinho tinto, como é que posso explicar que, não sendo sumo, eu
preferia beber água, mas nunca uma bebida alcoólica? Com o chamado
voto plural, através do qual numa eleição com mais de dois
candidatos se escolhe apenas um, não posso. "Este é o sistema mais
primitivo possível", criticou Jorge Buescu. Depois da primeira
opção, não exprimimos qualquer opinião relativamente às outras".
O sistema de voto plural é utilizado em todo o mundo, embora o
modo como estes votos são traduzidos em mandatos varie bastante
entre países e com o tipo de eleição (presidencial, legislativa ou
local). A Constituição Portuguesa consagra a representação
proporcional, traduzida pelo método de Hondt, para a distribuição
dos mandatos legislativos (ver caixa).
Festival da Canção
Quem se lembra do ritual de votação nos concursos da Eurovisão,
compreenderá facilmente que existem outras opções de voto que
permitem recolher mais informação sobre a vontade dos eleitores.
Trata-se de atribuir pontos que escalonam os diferentes candidatos,
uma ideia que o matemático Jean-Charles Borda apresentou, em 1770, à
Academia das Ciências francesa, como método para eleger novos
membros. Mais de 200 anos depois, os cientistas admitem que a
contagem de Borda, naquele caso posteriormente abandonada por ordem
de Napoleão, é o processo que melhor reflecte as escolhas dos
eleitores.
Claro que a aplicação deste sistema a uma eleição política com
vários candidatos e milhões de eleitores traz várias dificuldades,
tal como foi discutido no Pavilhão do Conhecimento, onde a partilha
de opiniões incluíu também cidadãos surdos com a ajuda de uma
tradutora de linguagem gestual. Por exemplo, a ordenação relativa de
todos os candidatos no boletim de voto poderia tornar-se num
quebra-cabeças ou, pior, numa lotaria. "Mas isso já não é um
problema matemático", lembrou Jorge Buescu.
Votos a contas com o método de Hondt
Quase 8,7 milhões de portugueses estão inscritos para eleger hoje
os 230 deputados da Assembleia da República. Cada eleitor tem
direito a um voto (na lista de um partido), que depositará numa urna
do seu círculo eleitoral. A conversão destes votos em mandatos
faz-se através do método de Hondt, uma fórmula matemática utilizada
também para distribuir os mandatos totais pelos 22 círculos
eleitorais, de acordo com os censos da população.
Concebido no final do século XIX pelo jurista belga Victor
D'Hont, este método de representação proporcional visa assegurar uma
relativa equivalência entre a percentagem de votos e a de mandatos.
Depois de apurados os votos recebidos, constrói-se uma tabela
dividindo o total de cada lista por 1, 2, 3, etc., e ordenando os
respectivos quocientes por ordem decrescente até se esgotarem os
mandatos disponíveis naquele círculo eleitoral. Em caso de empate na
atribuição do último mandato, este cabe à lista empatada que tiver
menor número total de votos. Quem quiser experimentar alguns dos
cenários de votação possíveis pode aproveitar a simulação disponível
em http://www.stape.pt/ .
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